Moçambique - Sinais do Espírito

Como sabem Moçambique é um País com imensas carências, mas mal cheguei a Maputo, notei uma evolução positiva em relação a 2002, quando lá tinha estado pela última vez. Notei que, apesar da pobreza e de tudo o que ela acarreta, a paz alicerçada trouxe uma via de evolução ao País. Apesar das cheias, das secas, das doenças, da fome, da corrupção, etc. etc., já se notam muitos sinais positivos de crescimento (construção, estradas, comércio, etc.). Vêem-se por toda a cidade campanhas publicitárias intensas de sensibilização contra o flagelo do HIV/Sida, contra a malária, a favor da educação, do civismo, inclusive já se viam cartazes (mais discretos, é certo, mas estavam lá!), contra a corrupção. E, logo aí, me surgiu a primeira surpresa: a Igreja Anglicana está intensamente envolvida nestas campanhas, nos efectivos problemas do País. Mesmo sem ter contactado ninguém da Igreja verifiquei o envolvimento da Igreja na vida do povo. Tenho de dizer-vos que fiquei feliz e orgulhosa por pertencer a esta Igreja, á Comunhão Anglicana.

A Igreja Anglicana em Moçambique está, desde a independência do País, dividida em 2 dioceses – do Niassa (norte) e dos Libombos (sul). Foi com esta última que estive em contacto.

A Diocese dos Libombos cobre a metade sul de Moçambique, uma área correspondente a cerca duas vezes e meia Portugal, num país em que as estradas ainda são muito rudimentares, o que torna, como devem calcular, as distâncias imensas, mas não intransponíveis, pois para eles só o facto de poderem transitar nas estradas sem perigo (sem emboscadas, sem minas, sem assaltos) é o fundamental!

Foi-me proporcionada, pelo actual Bispo dos Libombos, D. Dinis Sengulane, uma estadia de 6 dias no "centro" da Diocese, a cerca de 300 Km de Maputo, na Missão de Maciene, onde se encontra, desde sempre, a catedral.

Foram uns dias fantásticos, em que o Espírito se manifestou constante e alegremente.

Em Maciene, além da igreja, do hospital e das escolas, que já existiam na minha infância, estão a desenvolver um projecto, em colaboração com a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, de apoio a crianças e jovens órfãos e vulneráveis. Este projecto consiste em oficinas de tecelagem, bordados, manufactura de papel, costura, utilizando mão de obra local e matérias primas locais, como a bananeira, o coqueiro e o cajueiro. Para melhor poder contactar com as pessoas "meti-me" nas oficinas, teci, bordei, fiz papel, mas particularmente ouvi e falei.

Tive também a oportunidade de falar com muita gente da Igreja, uns contando-me histórias antigas outros falando dos problemas actuais (fome, falta de água, poucas oportunidades de ensino, doença, etc.)

Assisti, num Domingo, à missa principal na catedral e estive um bocado na Escola Dominical. As missas decorrem num ambiente de alegria e festa que já quando era menina me entusiasmavam e continuam a entusiasmar. Pergunto-me sempre como é possível que pessoas que têm de lutar pela mera sobrevivência festejem a sua fé, a sua vida, com tanta alegria e nós, com tantas mordomias e excessos, abandonamos cada vez mais a Igreja e relegamos Cristo das nossas vidas, e mesmo se somos cristãos comprometidos temos sempre a tendência para formalizar demais, para levar tudo muito "a sério", não imprimindo alegria á nossa vida, á nossa fé.

Como já perceberam o que mais me tocou foi a alegria de viver e a vontade de evoluir de um povo marcado pela guerra, pelas intempéries, pela pobreza e, a nível muito pessoal, a fantástica sensação de me ir deitar, cansada, mas com o sentimento de ter sido útil e ter aprendido eu também, entre outras muitas coisas, a relativizar os meus problemazinhos de nada!

O que é isto tudo senão sinais do Espírito num mundo que tendemos sempre a ver tão negro?! Regressei com renovada vontade de dar graças a Deus pela maravilhosa e constante acção do Espírito Santo no mundo e na minha vida!

Podem chamar-me ingénua ou demasiado optimista mas, muito sinceramente, voltei cheia de fé no mundo, nos homens e na "nossa" Igreja.